Mudanças climáticas, guerras e o Reverendo Malthus na COP-30
- presidencia739
- 13 de jun. de 2025
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Uma questão fundamental a ser discutida na COP-30 diz respeito aos intensos impactos das mudanças climáticas sobre a produção de alimentos no Mundo. Esses impactos socioeconômicos e socioambientais têm sido mais dramáticos quando a eles se somam os impactos adicionais de guerras localizadas em grandes áreas produtoras ou consumidoras de proteína animal e de proteína vegetal (Faixa de Gaza, Ucrânia, países da África e do Sudeste Asiático). O quadro se agrava quando ocorrem eventuais pandemias que desarticulam ainda mais os sistemas produtivos locais e, assim, a questão da fome na Humanidade pode se agigantar para além de 1 bilhão de habitantes do Planeta.
Mudanças climáticas e as quebras de produção de alimentos
William Nordhaus, da Universidade de Yale e Prêmio Nobel de Economia de 2018, tem escrito sobre a questão das mudanças climáticas em escala planetária. Embora tenha elaborado e testado diferentes e complexos modelos quantitativos sobre os riscos, as incertezas e a economia do aquecimento global, a lógica do seu pensamento é muito clara, podendo ser apresentada didaticamente em quatro movimentos.
O atual padrão de crescimento econômico leva a emissões de CO² (dióxido de carbono) e de gases de efeito estufa equivalentes na atmosfera. Concentrações crescentes de CO² e de gases de efeito estufa equivalentes levam às mudanças climáticas (temperatura, precipitação, elevação do nível do mar, etc.). Mudanças climáticas impõem impactos socioeconômicos e socioambientais (quebra da produção agrícola, acidificação do mar, inundações, etc.) que podem levar ao colapso de ativos e de serviços ambientais. O quarto movimento leva à necessidade da formulação e da implementação das políticas públicas de mudanças climáticas para reduzir as emissões (políticas de adaptação, de mitigação e de geoengenharia).
William Nordhaus – The Climate Casino-Risk, Uncertainty and Economics for a Warming World, Yale University Press, 2013.
Para Nordhaus, o tempo exato e a magnitude desses eventos são frequentemente impossíveis de serem previstos. Destaca quatro elementos ou pontos críticos da mudança climática em escala global. O colapso das grandes camadas de gelo (estima-se que o Oceano Ártico fique amplamente sem gelo durante o verão antes do fim do século); mudanças em larga escala na circulação oceânica (a elevação do nível do mar pode chegar até 1,8 metro, mesmo excluindo os efeitos das grandes camadas de gelo; processos de realimentação por meio dos quais o aquecimento traz mais aquecimento (efeito albedo); aquecimento expandido ao longo do tempo (a melhor estimativa do aumento da temperatura global de 1900 a 2100 está entre 1,8 e 4,0 °C). Daí a urgência de haver comprometimento dos países que participarão da COP-30 quanto à implementações das políticas públicas ambientais e dos seus objetivos operacionais.
Considerando que os cálculos mais recentes sobre os aumentos da temperatura global (as externalidades negativas) estão se acelerando, não há como deixar de se avaliarem na COP-30, os impactos desses aumentos sobre as quebras de produção de alimentos no Mundo. Como se sabe, o crescimento econômico e a melhoria da distribuição da renda em países populosos, como a China e à Índia, têm expandido geometricamente a demanda privada nos mercados de alimentos à qual se soma a demanda pública para programas de segurança alimentar.

Por Paulo R. Haddad - Economista brasileiro. Formado em economia pela Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais em 1962. Foi Ministro da Fazenda do Brasil, durante a presidência de Itamar Franco, de 16 de dezembro de 1992 até 1 de março de 1993. Hoje é membro da Academia Mineira de Letras.












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